TCE – Experiência difícil – 5 razões

Poucas pessoas entendem as realidades “escuras” por trás de um Traumatismo Crânio Encefálico Ligeiro. Vamos rever esta questão, e ver 5 razões pelas quais esta experiência é tão difícil em todas as áreas.

Alertar, sensibilizar e ajudar.

O Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) é definido como uma lesão cerebral profunda, que apresenta quase sempre um dano neurológico provocada por um traumatismo.

Frequentemente são as alterações físicas aquelas a que se dá um maior destaque. No entanto, o impacto de um TCE, nomeadamente ligeiro, apresenta-se como sendo muito mais profundo, verificando-se alterações significativas a nível psicológico, cognitivo, social e profissional. Os TCE Ligeiros são os mais frequentes e os mais ignorados nomeadamente, porque muitas vezes nem necessitam de internamento hospitalar, já que o doente recupera rapidamente da breve perda de conhecimento ou da sonolência que o impacto provocou.

Este cenário leva a uma perda repentina da qualidade de vida, afectando não só a pessoa com TCE ligeiro como também os cuidadores informais (família), sendo que não existe medicação eficaz para tratar os sintomas que a seguir se descrevem.

Dores de cabeça constantes, fadiga, impulsividade e outras dores físicas/ cognitivas

Antes de entrar nos desafios mentais e emocionais de um TCE Ligeiro, vale a pena analisar algumas dores físicas associadas e/ou alterações cognitivas. Aqui está uma lista de sintomas físicos e/ou cognitivos que podes ter nas semanas e meses (até anos) que seguem um TCE Ligeiro:

Dores de cabeça

Sentimentos de pressão na cabeça

Dor atrás dos olhos

Tontura

Fadiga

Sensibilidade à luz e ao ruído

Défice de atenção, concentração e memória

Confusão

Impulsividade

Uma coisa que muitas vezes não é discutida é a lesão secundária que pode resultar da lesão inicial. Todas as áreas do teu corpo estão ligadas e, quando uma área é afetada, pode enviar um efeito de dominó para outras áreas. Depois de meses a recuperar da lesão inicial podem aparecer problemas relacionados com o pescoço, ombros e costas (contraturas e dores fortes).

Tão desconfortáveis como estes sintomas físicos, e estes são, diríamos que os mais fáceis de um TCE ligeiro, são os obstáculos mentais e emocionais que causam “lesões” na cabeça tão difíceis.

2- O conforto que te mantêm equilibrado é-te repentinamente retirado
Para explicar melhor o que é um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE), vamos utilizar uma analogia:

Pensa na tua cabeça como a cave de tua casa.

Imagina que lá fora está a formar-se uma tempestade enorme e de repente, um raio estraga as paredes externas da casa.

Pense nesse raio como uma “pancada”.

Com essa “pancada” começam a aparecer rachaduras nas paredes, a água começa rapidamente a escorrer e a cave começa a inundar.

Para remediar este problema, precisarias de bombear água e reparar as paredes certo?

Uma lesão cerebral traumática (TCE) funciona de forma semelhante. Quando tens um golpe na cabeça, as paredes do teu cérebro ficam danificadas permitindo um aumento de cálcio nas células nervosas. Então, o teu cérebro precisa de remover esse excesso de cálcio e reparar a rachadura nas suas paredes. Mas para fazer isso ele precisa limitar a sua atividade.

Isso significa remover praticamente qualquer coisa e/ou tudo o que poderá estimular o teu cérebro. A todo momento há até 2.000.000 bits de dados no teu ambiente que a tua mente recebe – desde sons, imagens, temperatura, luz, e todas as diferentes formas de comunicação à tua volta. O cérebro não pode recuperar corretamente enquanto simultaneamente processa esse volume de informação. Não consegue. E porquê?

Porque como está lesionado ficou com uma capacidade reduzida para processar em simultâneo todos os factos.

Ficarias surpreendido se soubesses o quanto esforço cognitivo é necessário para ter uma conversa simples.

Assim, até o tempo com os amigos e familiares se torna limitado podendo levar ao isolamento total…durante semanas, meses e até anos.

Olhar para uma luz brilhante torna-se uma tarefa difícil, assim como ler, ver televisão, filmes ou qualquer coisa que envolva tecnologia. O dia a dia deixa de ser o mesmo.

Com pouco ou nada para fazer, o humor vai começar a ficar extremamente alterado.

E este conjunto de sintomas está hoje bem demonstrado que tem uma base muito orgânica (decorrente das lesões cerebrais) do que psíquica.

E assim começa o terceiro ponto.

3- É extremamente difícil descansar ao mesmo tempo a mente e o humor

Existem dois pilares de recuperação de um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) ligeiro:

Descanso Cognitivo

Gestão do estado de espírito

No último ponto, falamos sobre o descanso cognitivo, mas fazer a gestão do estado de humor é também muito importante.

Podes conseguir limitar a actividade do teu cérebro, mas se te estiveres a sentir triste, deprimido ou ansioso, a tua reabilitação fica dificultada e vai parar.

Os dois pilares precisam de estar intactos, em equilíbrio, para que a recuperação seja de uma forma adequada.

Alcançar este equilíbrio é mais difícil do que possas imaginar.

Nos primeiros dias, meses de recuperação, é normal que te sintas numa espécie de “cela”. E porquê?

Vais conseguir dar ao teu cérebro tudo o que precisa para recuperar eliminando todos os estímulos à tua volta, no entanto, o sentimento de solidão geral aumenta. Os amigos desaparecem, os livros, a televisão, o computador, o telefone, tudo desaparece. Não tens nada para fazer a não ser descansar.

Mas os dias começam a passar e transformam-se em meses de um dia a dia adiado.

Então provavelmente vais usar uma técnica que todos conhecemos no dia a dia das nossas vidas apressadas: pensar em tudo isso de forma positiva e aproveitar para descansar “a sério” ou até aprender novas técnicas que te ajudem, como por exemplo meditar. Quem já não fez isto? Todos temos a capacidade de ver oportunidades na adversidade.

O que muitas vezes não conseguimos ver é que ainda não estamos preparados para sobreviver sozinhos. Sejam essas técnicas planeadas ou inconscientes (instinto de sobrevivência). E quanto mais tentamos mais o ruido na cabeça aumenta, a ansiedade aumenta, vem a depressão e o medo aterrorizado em relação ao futuro.

Uma das primeiras ideias é ir contra o que foi aconselhado fazer, ou seja, descanso total. E então vais começar a ir buscar algumas coisas como o telemóvel ou televisão. Vais traze-las de volta para a tua vida simplesmente para te sentires. Tu. Para preencheres o vazio e a dor.

Depois vais começar a sair de casa. Vais começar a sociabilizar e até podes ter a ideia de ires fazer ginástica, ler um bom livro. Vais procurar ter uma “fatia “de vida normal.

Há alturas em que achamos que estamos a utilizar as melhores estratégias, e sim vais perceber que o teu humor vai melhorar. E sim, vais perceber que, assim de repente, foi actividade a mais para o teu cérebro e vais perceber que gradualmente os sintomas podem piorar.

É no teu cérebro que reside o cerne da recuperação de um Traumatismo Crânio Encefálico(TCE) ligeiro: tratar só um pilar garante que o outro vá caindo. Descansares só a mente leva a que o teu humor caia. E levantares o teu humor deixa a tua mente sem o resto que precisa para se recuperar.

Assim se cai num circulo vicioso e numa espiral nebulosa…

Há medida que o humor piora, a reabilitação fica estagnada, o que por sua vez faz com que o humor mergulhe ainda mais nesta espiral.

Assim, podem aparecer as insónias, a depressão, aumento do estado de ansiedade, a falta de esperança e até mesmo o pensamento suicida.

O que fazer? E agora? Como podes neste turbilhão todo relaxar (dentro do possível)? Ajudares o teu corpo nesta sua árdua tarefa de reabilitação? É possível isso? Sim é possível.

Com exercício físico. Depois de falares com o teu médico para ele avaliar qual o que se adequa à fase de reabilitação em que te encontras.

Poderás fazer exercícios mais aeróbios como por exemplo natação ou corrida ou podes fazer outro tipo de exercícios como ioga ou pilates que te dão e te ensinam (caso nunca tenhas feito) mais relaxamento, ajudam a melhorar a tua concentração e mantêm os teus músculos em forma.

Tudo isto leva à extrema importância de que todos os intervenientes nesta recuperação, incluindo cuidadores informais (família, amigos, colegas, etc.) entendam claramente, ou da melhor forma possível o que poderá vir a acontecer. Assim se torna bastante importante o próximo ponto.

4- Afeta os teus relacionamentos

Um Traumatismo Crânio Encefálico(TCE) Ligeiro pode afetar profundamente os teus relacionamentos principalmente com os que te são mais próximos, principalmente com a tua “cara metade”.

Ao nível mais básico, os papéis podem mudar. Podes ter sido o elo forte da tua relação onde tinhas sempre um ombro forte, uma mão dada bem apertada, uma organização do dia a dia sempre bem planeada, mas durante este tempo de reabilitação tornas-te o paciente e ele torna-se o cuidador (informal).

Pequenas coisas, como comprar comida, pagar contas, responder a e-mails e várias outras tarefas do dia a dia são tratadas por ele.

Sim é uma situação difícil de passar (mas ela passa acredita). Vais sentir que nunca estiveste numa posição tão vulnerável e vais achar difícil de repente precisares de ajuda com tantas das tuas necessidades básicas.

Como falamos anteriormente, um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) ligeiro leva uma séria e grande pitada de saúde mental. Podes ficar com “coisas” como depressão, raiva, ansiedade, irritabilidade e uma série de outras emoções negativas – às vezes, tudo num dia. Podes começar a pensar de forma completamente irracional. A janela através da qual olhas para a tua vida está completamente distorcida.

Além disso, a tua “cara metade” e os teus familiares próximos (filhos por exemplo) vão ter também o seu próprio conjunto de medos, preocupações e frustrações para trabalhar.

Tudo isso vai-se tornar uma tempestade perfeita nos teus relacionamentos. A ansiedade, a alteração de humor, a irritabilidade, a falta de tolerância para tudo, vão tirar o melhor partido da situação e torna-se quase impossível não discutir ou lutar por vários “problemas” muitas vezes insignificantes. Tudo isto provoca um desgaste na vida dos familiares e amigos.

Por tudo isto, a comunicação aberta é essencial durante todo este tempo. É normal eles não entenderem o caminho que estás a percorrer (a não ser que já tenham tido algum tipo de lesão cerebral). É de extrema importância que todos estejam envolvidos no processo de reabilitação. Um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) ligeiro não acontece só ao individuo, acontece à família toda.

5- O processo de recuperação está cheio de incerteza

Um dos aspectos mais assustadores da recuperação de um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) ligeiro é lidar com a incerteza.

Se partires um braço ou magoares um joelho, o processo de recuperação é geralmente direto. O tempo de recuperação que um médico te diz é mais ou menos preciso. Descansando alguns meses vais ver que a tua lesão melhora gradualmente de forma linear.

Recuperar uma lesão cerebral não é tão simples.

Não consegues avaliar tão claramente o “quanto” recuperado realmente estás. Podes fazer um TAC ou uma ressonância magnética, mas na realidade não vais saber o que a cabeça sente, ou pode vir a sentir. Isso varia de dia para dia. Semana para semana. Uns dias vais conseguir sair de casa, ver luzes brilhantes, estar mais activo. Outros dias vais sentir que andaste tudo para trás.

O Traumatismo Crânio Encefálico TCE deixa-te num ponto distante daquele em que estavas antes dele. A viagem de retorno é lenta e progressiva e local onde essa viagem termina é variável conforme o trauma e a pessoa, podendo ser mais ou menos distante do ponto inicial.

A verdade é que cada cérebro é diferente, cada TCE é diferente e cada recuperação é diferente. Os médicos vão recomendar certas práticas para ajudar a recuperação, mas a realidade é que nem eles sabem a 100% o que está a acontecer dentro do teu cérebro quando este fica ferido.

Toda essa incerteza torna o processo exponencialmente mais desafiador.

Conclusão

Sofrer um Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) ligeiro pode ser uma das experiências mais difíceis da tua vida. O que normalmente te mantêm “saudável” desaparece rapidamente. Desde o trabalho, passatempos, vida familiar… O teu humor pode cair e continuar a espiral descendente ao longo do processo. A reabilitação pode ser rochosa e cheia de incertezas principalmente quando encarada sozinho.

Fisicamente, mentalmente e emocionalmente…Todos estes desafios se juntam.

No entanto, se tiveres a coragem de pedir ajuda (sim é preciso coragem), se quiseres encontrar o teu caminho, se conseguires olhar para fora, para as extremidades, vais perceber que tens uma força que nem sabias que estava lá. Precisas de dar o primeiro passo e este passo chama-se: Aceitação.

Sim estão aqui escritas muitas realidades cinzentas. Mas acredita (mesmo) que há pessoas que apesar de não entenderem tudo o que tu dizes, entendem tudo o que tu sentes. E esse é um bom porto de partida.

P.S. nunca-te-percas-de-ti